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"Depois de eliminarmos o impossivel, o que nos resta, mesmo que seja improvavel, deve ser a verdade" Sir Arthur Conan Doyle [1859-1930], Escritor Escoces



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os paradoxos que atormentam as zonas áridas e semi-áridas em Moçambique

A maior parte do território moçambicano localiza-se na zona inter-tropical, o que lhe confere um clima do tipo tropical com quatro variações: tropical húmido, tropical seco, tropical semi - árido e clima modificado pela altitude. O clima tropical húmido é o predominante, caracterizado por duas estações, nomeadamente a fresca e seca que se estende de Abril a Setembro e a quente e húmida entre Outubro e Março. Toda a linha de costa recebe cerca de 800 – 900 mm de precipitação por ano.

Na zona sul de Moçambique a precipitação é relativamente elevada no litoral, de onde decresce rapidamente em direcção `as zonas do interior, aumentando depois nas encostas das montanhas dos Libombos, na fronteira com Suazilândia e África do Sul. As regiões do interior da província de Gaza e a região fronteiriça com a África do Sul e Zimbabwe são áridas. As zonas áridas e semi-áridas abrangem 27 distritos nas províncias da região sul e centro, mais dois na província de Nampula (Memba e Nacarrôa), no norte do país, e têm como características recorrentes as precipitações médias anuais abaixo da média (inferiores a 500 milímetros).

Conforme estabelecido pelo “Plano de acção de combate a desertificação das Nações Unidas” [1977], as zonas áridas e semi-áridas são caracterizadas, de modo geral, pela aridez do clima, pela deficiência hídrica, com insuficiência, irregularidade e imprevisibilidade das precipitações pluviométricas, e pela presença de solos pobres em matéria orgânica. O prolongado período seco anual eleva a temperatura local, forte taxa de evapotranspiração, caracterizado a aridez sazonal. A hidrologia e a vegetação são totalmente dependentes do ritmo climático.  

A precipitação sobre a região Austral de Africa apresenta grande variabilidade, sendo agora conhecido que esta variabilidade é fortemente condicionada por um fenómeno atmosférico – oceânico denominado El Niño Oscilação Sul [ENSO]. A influência dos eventos ENSO nas condições pluviométricas regionais, reflete de forma positiva ou negativa nos níveis da produção agro-pecuária registrada nos anos de ocorrência, causando fenômenos como secas e enchentes em várias partes do globo, nas suas fases quente (EL Niño) ou fria (La Niña).

Os países da africa austral e outros que estão em latitudes com fortes conexões com o El Nino e padrões de tempo, devem usar modelos de previsão para a quase normal, fraca e fortes condições de El Nino e/ou La Nina. Secas têm sido reconhecidas como ocorrências comuns nas regiões tropicais e sub tropicais de Africa e estas são caracterizadas por uma distribuição temporal e espacial em longas áreas.

Nas zonas do interior semi - árido e árido da Província de Gaza e Inhambane, nos últimos dois anos tem-se caracterizado pela insuficiência, imprevisíveis e irregularidade de chuvas, sendo que no distrito de Chigubo (Província de Gaza) e Funhalouro (Província de Inhambane) as estações chuvosas não iniciaram conforme as previsões, e ao ocorrer em certos locais, caiu na sua maioria concentrada em alguns dias, associados com temperaturas elevadas e fortes taxas de evapotranspiração, que se reflete na modelagem da paisagem desses dois distritos, desperenização generalizada dos rios, riachos e córregos endógenos. Quando se tem acesso a água, verifica-se uma baixa qualidade para consumo humano, animal e para irrigação agrícola, devido a alta concentração de sais minerais (água salobra).

Por incrível que pareça, apesar da evolução de todo o saber científico, prevalece a miopia técnica e há desconhecimento profundo da complexidade sobre as zonas áridas e semi-áridas a nível nacional, razão pela qual o Centro de Recursos e de Usos Multiplos [CERUM], adstrito ao Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), instituição responsável pela implementação de novas abordagens que incidem sobre o desenvolvimento das zonas áridas e semi-áridas, está representado em apenas seis dos vinte e sete distritos.

As abordagens do CERUM que incidem sobre o desenvolvimento das zonas áridas e semi-áridas ainda são de pequena escala e de baixa capacidade, diante do potencial disponível, e dificilmente lograra seus intentos, se termos em consideração a visão estratégica emanada pelo Plano Director do INGC, iniciado em 2006, cujo horizonte temporal é de 10 anos. Para que abordagem surta os efeitos desejados, serão necessárias medidas estruturais que possam alterar os alicerces socio económicos da região.

O drama que atormenta as populações das zonas do interior semi - árido e árido da província de Gaza e Inhambane, poderá ganhar dimensão catastrófica resultando em tragédia humana, visto que, de acordo com o “Climate prediction center” e “International Research Institute for Climate and Society”, prevê-se com probabilidade de 50%, ocorrência do fenómeno EL Niño com início para julho – setembro do presente ano. As previsões ganham significância, se termos em consideração que na bacia do Limpopo, as secas severas têm ocorrido em intervalos de 7 a 11 anos, e a seca de 1991-92 foi a pior que há memória, tendo afectado a bacia inteira e a maior parte da região Austral de África.

Apesar de relatos das secas, do flagelo da fome, aspereza da vegetação e imagens negativas sobre zonas áridas e semi-áridas em Moçambique, enfatizarem paisagens desérticas e desoladoras, de maneira paradoxal, constata-se que constituem zonas com menor volume de análises feitas sobre sua realidade, e por conseguinte, poucas proposições para enfrentar seus problemas. Urge mudar de visão, de modo que as analises ultrapassem a descrição da problemática climática (causas) e socio económica (efeitos) e passem a enfatizar também os mecanismos estruturais que criam e reproduzem rendimentos.

As estratégias para enfrentar essa realidade dependem em grande parte da sensibilidade e do nível de responsabilidade do poder público para com o bem-estar dos seus cidadãos. Há que desmistificar as acções assistenciais e hidráulicas de combate a seca realizado por diversos programas públicos, que, além de ineficazes, reproduzem as estruturas de dominação, por serem acções pontuais e episódicas para responder ao clamor da sociedade na tentativa de minimizar o sofrimento da população enquanto espera-se o período das tão esperadas e necessárias chuvas, perpetuando a dependência da população sem que sejam elaboradas e aplicadas soluções adequadas que possibilitem a convivência da população com a ocorrência das secas nem planificar e executar estratégias viáveis de desenvolvimento local.

Em um momento em que se discute, de forma intensa, a respeito da necessidade e dos meios de se executar mecanismos de prover alimentação em quantidade e qualidade desejada, torna-se importante não ignorar as zonas áridas e semi-áridas, e analisar de uma forma ampla os principais problemas da agricultura moçambicana e suas causas. A necessidade de uma estratégia de produção agrária nacional que não ignore as zonas áridas e semi-áridas, a extensão e profundidade que a mesma deverá ter, dependerá do grau de adequação da estrutura agrária do país. Quanto mais as deficiências estruturais constituírem-se em causa das dificuldades que hoje enfrenta o sector agrícola, maior será a necessidade da estratégia de produção agrária nacional, e mais radical deverá ser ela. Basicamente devera cingir-se em quatro causas: (a) económicas, (b) técnicas, (c) políticas e (d) estruturais.

5 comentários:

  1. Li há dias uma reportagem sobre o Sr. Rajendra Singh que tem usado métodos tradicionais para recuperar fios de água que já não tinham água há décadas...

    http://en.wikipedia.org/wiki/Rajendra_Singh

    Lembrei-me de Moçambique. Será que há nesta metodologia alguma esperança para as condições que descreve acima?

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  2. Alguns documentos disponíveis para uso:

    http://www.rainwaterharvesting.org/rural/traditional1.htm

    http://gwadi.org/sites/gwadi.org/files/CaseAlwar2.pdf

    http://gwadi.org/sites/gwadi.org/files/CaseAlwar2.pdf

    Disponho-me a traduzir para português se isto for de interesse.

    Cumprimentos,
    'nando

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  3. Uma busca pode ser feita na net usando as palavras:

    johad ou johads
    earthen check dams

    Aparecem sites e documentos, alguns mencionei acima.

    Como disse Bill Clinton há alguns anos - já temos soluções para todos os problemas, não temos é conseguido que essas ideas se propaguem para todos os que delas precisam...

    Se se conseguisse uma região a trabalhar... será que o país ouviria? O povo ouviria?

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  4. Há uma referência a este artigo no blog:

    http://steppingforwardpt.blogspot.pt/2012/07/40-captacao-de-agua.html

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  5. Nando,

    Meus sinceros agradecimentos pelos comentários, dicas e sugestões. Prometo ler os artigos mencionados, e escrever um artigo com sugestões praticas baseados nas diversas experiências mencionadas.

    Melhores cumprimentos

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